Garmendismo (ou: o vegetarianismo é um especismo)

Por Victor Costa (Finitude Café)

O texto a seguir foi escrito por um mestre em filosofia, abordando seu pensamento sobre vegetarianismo e veganismo. Como o consumo de leites e ovos da dieta ovolactovegetariana também deve ser visto como especismo.

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Quem transita pelos corredores do curso de filosofia da UFSM sabe que por lá vive um sujeito que é, digamos assim, o grande campeão da ética. No presente momento, o sujeito está na pós-graduação, estudando utilitarismo com ênfase em direitos dos animais. O sujeito é vegano e defende um verdadeiro Frankenstein teórico, construído a partir das mais diversas fontes da ciência e da filosofia contemporânea. O sujeito é, de longe, meu melhor interlocutor – e assessor particular – para assuntos de ética aplicada. E aquilo que acabei de chamar de Frankenstein teórico fundamenta uma das perspectivas teóricas mais coerentes e exigentes que tive o (des)prazer de conhecer nos meus poucos anos de estudo em filosofia. Por falta de um nome melhor, chamarei essa perspectiva de “garmendismo”.

Em meu entendimento, o garmendismo defende uma posição radical no tocante a moralidade das ações. Segundo o garmendismo, provocar o sofrimento de um ser senciente é imoral, e atos imorais não devem ser cometidos, pois são injustificáveis. Uma das conseqüências dessa posição é a atitude vegana, ou seja, um estilo de vida totalmente depurado dos hábitos fundados sobre a exploração dos animais. Assim, segundo o garmendismo, nossa sociedade está completamente atolada no erro moral, pois os animais são explorados das mais variadas formas para que possamos ter o estilo de vida que temos. Dede nossa alimentação (carne, ovos, leite) passando por nosso vestuário (couro, peles), os produtos químicos que usamos depois de serem testados em animais (remédios, xampus) até os animais que exploramos por sua força (carroças, arados), em suma, tudo isso e mais uma série de coisas que ignoro é completamente imoral, pois é fundado sobre uma profunda, intensa e continuada exploração de nossos irmãos não-humanos, que tratamos como coisas enquanto na verdade são, enquanto sujeitos de interesses, pessoas.

Por sua própria natureza, o garmendismo desemboca no transumanismo. O projeto garmendista de eliminação de todo sofrimento se harmoniza perfeitamente com os sonhos transumanistas de manipulação genética e superdrogas. Uma vez que seja possível, através do avanço da tecnologia, tomar as rédeas da evolução natural e transformá-la em uma evolução racional, é aparentemente lógico que algumas opções serão feitas e algumas das realidades mais básicas da existência humana poderão ter desaparecido para sempre. Refiro-me à morte e a dor. Assim, o garmendismo é também um imortalismo e o sonho do garmendista é o de ver uma natureza completamente reprogramada, sem predadores, sem adversidades, sem sofrimento, sem morte.

Contudo, como um “finitista” (o oposto do imortalista, uma espécie de suicida bastante demorado), sou obrigado a extrair conseqüências bastante evidentes do garmendismo. Sim, esse não é um texto meramente elogioso.

Começo por observar que o garmendismo, como qualquer posição radical, habita uma região muito próxima do “irrealizável”. Não por que seja impossível. Nem porque seja tão difícil. Talvez, apenas, porque é muito chato e porque as pessoas são muito preguiçosas. Vou explicar.

Fui, sem dificuldades, vegetariano por dois anos. Andava feliz e sorridente pelo mundo que Deus criou – e Darwin explicou como funcionava –, até que um dia entrei em contato com as idéias garmendistas. Certo de que poupava do sofrimento as minhas primas vacas e galinhas ao renunciar ao sabor dos bifes, churrascos e galetos, com o garmendismo descobri que os ovos, o leite, o queijo que eu consumia, bem como o couro dos sapatos que eu usava contribuíam tanto – ou às vezes mais! – para o sofrimento dos animais explorados em sua produção quanto a carne que eu abolira. Com o garmendismo eu descobri que o vegetarianismo é uma ilusão, e que apenas o veganismo pode representar uma autêntica perspectiva ética àqueles que realmente se preocupam com a questão do sofrimento animal. Depois de entrar em contato com o garmendismo, eu não poderia mais enganar à mim mesmo: ovos, leite e couro são exploração dos animais, e servir-se destes produtos seria compactuar com o Mal aos meus irmãos não-humanos. A partir desse momento o veganismo seria o Bem,  a preguiça seria o Mal.

Neste momento, tornei-me Lúcifer e aceitei que meu pecado (a preguiça) fazia de mim um arauto do Mal sobre o mundo.

[Pausa para um cigarro, um café e para a descontração dos leitores]

Vejam bem: eu não discordo do garmendismo. O garmendismo é uma perspectiva moral. A senciência é um bom ponto de partida para uma ética. Se alguém que aceita que a senciência é realmente um bom fundamento para a moralidade e, ainda assim, continua disseminando o sofrimento indiscriminadamente (bebendo leite, por exemplo), essa pessoa está aceitando um papel na luta do Bem contra o Mal. Está assumindo um lado na batalha. Contudo, não é esse o tipo de argumentação que vejo direcionada contra o garmendismo.

Várias objeções já foram feitas ao garmendismo. A maioria delas, porém, não procede. A maioria das objeções ao garmendismo são de pessoas que estacionam sua reflexão ética em algum meio termo bem-estarista, no qual acabam defendendo espantalhos teóricos dos mais diversos: ou o estilo de vida vegana é considerado insustentável no mundo contemporâneo, ou informações médicas/científicas absolutamente duvidosas defendem uma necessidade de consumo de produtos animais por parte dos humanos, ou os níveis de senciência das diferentes espécies justifica níveis de sofrimento que podem ser infringidos, etc. Preguiça, pura preguiça, nada mais que preguiça. Ou se ataca a senciência como fundamento da ética, ou aprende-se a viver com a cumplicidade pela disseminação do Mal. Diante do garmendismo, não há meio termo: ou você o derruba por inteiro, ou você é do Mal. É simples.

No fim das contas, há um certo tipo de preguiça moral que acaba sendo um dos piores tipos de inimigo do garmendismo: a preguiça moral que fundamenta o vegetarianismo bem-estarista. Diferentemente da brutalidade gratuita do açougueiro que não está nem aí para a senciência, a racionalização vegetariana acaba sendo a expressão de uma incapacidade da convivência com o Mal causado pelas próprias ações. Vegetarianos consumidores de ovos e leite realmente querem acreditar que fazem a diferença em algum nível, fechando os olhos, consciente ou inconscientemente, para a indiferença moral de sua conduta no tocante à exploração animal. Diante do garmendismo, todo tipo de justificação moral servirá para o alívio da consciência vegetariana. Utilizando a terminologia sartreana com a qual estou habituado, afirmo: diante de uma moral da senciência, o vegetarianismo é uma forma de má-fé, de engano de si.

Não aderi ao garmendismo, é verdade. Pequei por preguiça e entrei no time do Mal. O vegetarianismo não faz mais sentido e para o veganismo sou preguiçoso demais. Estaria sendo injusto com o garmendismo se dissesse que, no fundo, a grande mensagem dessa perspectiva moral é a de libertar de uma conduta vegetariana aparentemente inútil. Porém, levanto uma questão para uma próxima postagem: que estranho fenômeno é esse que, sob diferentes formas, adormece a consciência moral para a participação no Mal? Pois depois do garmendismo, repito, a conclusão é inescapável: só há o veganismo ou o Mal.

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One comment

  1. Fico feliz de ver que esse meu texto – muito mais uma “homenagem” à um amigo do que qualquer outra coisa – foi útil. Explicando o título aparentemente non-sense: garmendismo foi um termo cunhado no interesse de definir a postura de um amigo vegano que tem o sobrenome Garmendia, e que é o vegano mais consequente e coerente que conheço.

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