Dica de Leitura: Humana Festa

Por Regina Rheda


“Humana Festa” narra o romance entre Megan, uma americana defensora dessas filosofias, e o brasileiro Diogo, filho de um poderoso fazendeiro. Da Flórida, passando por Massachusetts, até chegar em uma grande propriedade rural no Brasil, os conflitos entre duas pessoas com experiências de vida tão diferentes explodem na busca por um ideal comum. Livraria Saraiva (R$ 47,90)

Humana festa, o quinto livro em português de Regina Rheda, é uma obra original. Sua temática é de uma atualidade total e urgente: como lidar com o fato de que a hegemonia dos humanos sobre os demais animais não é mais defensável. Como lemos neste romance, abrir mão desta posição de ponta na hierarquia das espécies também significa abrir mão do patriarcalismo.

Não por acaso uma das epígrafes deste livro é de Percy Shelley, um dos mais importantes poetas do romantismo inglês: naquela época a humanidade refletiu profunda e angustiadamente sobre a sua situação prometeica. O capitalismo e as tecnologias de então anunciavam a possibilidade do ser humano desbancar Deus. Agora vivemos sob a ameaça de ser esmagados pela técnica e pela natureza, que se rebelam. Somos obrigados a repensar o que são a natureza e o biopoder. Como lemos no livro: “está errado aproveitar-se dos animais, humanos ou não, como se eles fossem meros instrumentos, seja lá para o que for!”

Os protagonistas desta obra são veganos, ou seja, seguidores de um modo de ver o mundo que o coloca de ponta-cabeça, porque reconhece que devemos respeitar toda vida animal capaz de sentir, pois estes animais devem ser vistos como alguém, “pessoas”. Isto porque possuem uma consciência de si e não podem ser reduzidos à nossa propriedade. O enredo trança destinos que se localizam na Flórida, em Massachusetts e em uma grande propriedade rural no Brasil.

A história serve de alegoria para a apresentação do veganismo e dos desafios que sua “realização” significará. Pois, afinal, trata-se de uma utopia pós-patriarcal e pós “especista”, talvez uma das poucas bandeiras revolucionárias em uma época que se considera pós-utopias. Os personagens têm nomes-papéis que explicitam este projeto alegórico: Megan (para vegan), Bob Beefeater, Afonso Bezerra Leitão, Marcela Gallo Sardinha, Mortandela (um suíno), Dona Orquídea etc.

A pergunta colocada pelo livro repercute e, esperemos, deve incomodar de modo produtivo: “Até quando um vegano será considerado radical, e um humano que explora animais, sensato?”(Márcio Seligmann-Silva, professor de teoria literária e literatura comparada na Unicamp).

Humana festa. Romance de Regina Rheda. Rio: Record, 2008

O primeiro romance brasileiro a abordar direitos animais e veganismo como tema principal.

“Rheda aplica seu singular engenho e olho para as contradições à questão da exploração dos animais não-humanos. Ela entretece dois cenários paralelos – o interior da Flórida afeito às armas e à bíblia, e o interior de São Paulo com suas fazendas e seu agronegócio, onde propriedades trabalhadas por escravos foram substituídas por fazendas intensivas de gado e porco que são operadas por trabalhadores mal pagos e subsidiadas por conglomerados americanos. […] Uma incisiva exposição da ansiedade dos ricos proprietários de terras quanto a reterem seu poder, e da entrelaçada exploração de classe e espécie da qual esse poder depende”. (Alexandra Isfahani-Hammond, Chasqui – Revista de Literatura Latinoamericana).

Não por acaso uma das epígrafes deste livro é de Percy Shelley, um dos mais importantes poetas do romantismo inglês: naquela época a humanidade refletiu profunda e angustiadamente sobre a sua situação prometeica. O capitalismo e as tecnologias de então anunciavam a possibilidade do ser humano desbancar Deus. Agora vivemos sob a ameaça de ser esmagados pela técnica e pela natureza, que se rebelam. Somos obrigados a repensar o que são a natureza e o biopoder. Como lemos no livro: “está errado aproveitar-se dos animais, humanos ou não, como se eles fossem meros instrumentos, seja lá para o que for!”

Os protagonistas desta obra são veganos, ou seja, seguidores de um modo de ver o mundo que o coloca de ponta-cabeça, porque reconhece que devemos respeitar toda vida animal capaz de sentir, pois estes animais devem ser vistos como alguém, “pessoas”. Isto porque possuem uma consciência de si e não podem ser reduzidos à nossa propriedade. O enredo trança destinos que se localizam na Flórida, em Massachusetts e em uma grande propriedade rural no Brasil.

A história serve de alegoria para a apresentação do veganismo e dos desafios que sua “realização” significará. Pois, afinal, trata-se de uma utopia pós-patriarcal e pós “especista”, talvez uma das poucas bandeiras revolucionárias em uma época que se considera pós-utopias. Os personagens têm nomes-papéis que explicitam este projeto alegórico: Megan (para vegan), Bob Beefeater, Afonso Bezerra Leitão, Marcela Gallo Sardinha, Mortandela (um suíno), Dona Orquídea etc.

A pergunta colocada pelo livro repercute e, esperemos, deve incomodar de modo produtivo: “Até quando um vegano será considerado radical, e um humano que explora animais, sensato?”(Márcio Seligmann-Silva, professor de teoria literária e literatura comparada na Unicamp).

Humana festa. Romance de Regina Rheda. Rio: Record, 2008
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