Dica de Leitura: Libertação Animal de Peter Singer

Por Rancho Alegre

PREFÁCIO À EDIÇÃO DE 1990

Reler o prefácio original deste livro é como retornar a um mundo semi-esquecido. Pessoas preocupadas com animais não me oferecem mais sanduíches de presunto. Nos grupos do movimento de Libertação Animal, os ativistas são, agora, todos vegetarianos; mas, mesmo no movimento mais conservador em defesa do bem-estar dos animais há alguma consciência da questão do consumo de carne. Os que ainda a consomem apresentam suas desculpas e, quando preparam refeições para outros, estão sempre prontos a oferecer alternativas. Há uma nova consciência sobre a necessidade de se estender a simpatia por cães e gatos a porcos, galinhas e até a ratos de laboratório.

Não tenho certeza do quanto desta mudança se deva creditar ao livro Libertação Animal. Jornalistas de revistas populares apelidaram-no de “bíblia do movimento de libertação animal”. Não posso deixar de sentir-me lisonjeado, mas, ao mesmo tempo, estou um pouco constrangido. Não acredito em bíblias: nenhum livro detém o monopólio da verdade. Em todo o caso, a menos que toque o leitor, nenhum livro pode chegar a lugar algum. Os movimentos de libertação dos anos 60 tornaram a Libertação Animal um passo óbvio: esse livro reuniu os argumentos e deu-lhes uma forma coerente. O resto foi feito por algumas pessoas excelentes, eticamente empenhadas, trabalhadoras infatigáveis — inicialmente alguns indivíduos, depois centenas, que se tornaram, gradualmente, milhares e agora, talvez, milhões — constituindo o movimento de Libertação Animal. Dedico-lhes essa edição revisada, porque, sem elas, a primeira edição teria o mesmo destino do livro Animals´ Rights [Direitos dos Animais] de Henry Salt, publicado em 1892, e deixado nas prateleiras da biblioteca do Museu Britânico, acumulando poeira até que, oitenta anos depois, uma nova geração reformulasse argumentos, topasse com algumas referências obscuras e descobrisse que tudo já havia sido dito, mas sem resultado.

Desta vez não será em vão. O movimento cresceu e tornou-se muito grande para isso. Importantes benefícios já foram alcançados em prol dos animais. Outros ainda maiores estão por vir. A Libertação Animal é, agora, um amplo movimento mundial, e ainda estará na ordem do dia por muito tempo.

Freqüentemente me perguntam se estou satisfeito com a maneira como o movimento cresceu. O modo como fazem a pergunta deixa claro que esperam ouvir: “Jamais sonhei que o livro tivesse tão grande impacto”. Mas estão enganados. Pelo menos nos meus sonhos, todos os que lessem o livro exclamariam “Sim, é claro…”. Imediatamente se tornariam vegetarianos e começariam a protestar contra o que fazemos com os animais. Assim, mais pessoas ouviriam a mensagem de Libertação Animal e, pelo menos as formas mais extremas e desnecessárias de sofrimento animal logo terminariam, em conseqüência de uma irresistível onda de protesto público.

É verdade, esses sonhos eram contrabalançados pela consciência que tenho dos obstáculos: o conservadorismo da maioria de nós quando se trata daquilo que colocamos no estômago; os interesses financeiros que lutam até o último milhão para defender seu direito de explorar animais visando ao máximo lucro; e o sólido peso da história e da tradição, que reforçam as atitudes que justificam essa exploração. Portanto, fiquei feliz em receber cartas de muita, muita gente que leu o livro e exclamou: “Sim, é claro…”, e parou de comer carne, tornando-se um membro ativo do movimento de Libertação Animal. Fiquei ainda mais feliz, naturalmente, pois, após tantos terem lutado tão longa e arduamente, o movimento de Libertação Animal é uma realidade política e social. Contudo, ainda assim, não é bastante; nem sequer está perto de ser suficiente. Como mostra claramente essa edição, o movimento teve, até agora, pouco impacto sobre as principais formas de exploração dos animais.

Libertação Animal foi publicado pela primeira vez em 1975 e continua a ser impresso, praticamente sem alterações, desde então. Três aspectos estão agora maduros para revisão. Primeiro, quando o livro surgiu, não havia o movimento de Libertação Animal. O próprio termo era desconhecido e não havia grandes organizações — apenas algumas pequenas — trabalhando para implementar mudanças radicais em nossas atitudes e práticas relacionadas aos animais. Quinze anos mais tarde, seria decididamente estranho que um livro intitulado Libertação Animal não se referisse à existência de um movimento moderno de Libertação Animal e, por conseguinte, não comentasse o curso que o movimento tomou.

Segundo, o surgimento do movimento moderno de Libertação Animal tem sido acompanhado por um impressionante aumento da quantidade de material escrito sobre o tema — a maior parte comentando as posições assumidas na primeira edição desse livro. Também passei longas noites discutindo questões filosóficas e conclusões práticas com amigos e companheiros do movimento de Libertação Animal. Algumas respostas a todo esse debate pareceram-me necessárias, nem que seja para indicar em que medida alterei ou não meus pontos de vista.

Finalmente, o segundo e o terceiro capítulos desse livro descrevem o que significam nossas atitudes atuais em relação aos animais em dois dos campos principais em que são utilizados: a experimentação e a criação. Tão logo comecei a ouvir pessoas dizendo coisas como “Certamente, as coisas melhoraram muito desde que isso foi escrito…”, soube que seria necessário documentar o que acontece hoje em dia nos laboratórios e nas granjas, apresentando ao leitor descrições que não podem ser descartadas com o argumento de serem pertencentes a uma era distante e obscura.

As novas descrições constituem a maior parte das diferenças entre a presente edição e as anteriores. Resisti, no entanto, às sugestões de que deveria acrescentar relatos semelhantes de outros tipos de abusos contra os animais. O objetivo do material factual não é servir de relatório exaustivo do modo como tratamos os animais; ao invés, pretende mostrar de maneira clara, nítida e concreta, como indiquei no final do primeiro capítulo, as implicações da concepção filosófica mais abstrata do especismo apresentadas nesse capítulo. A omissão das discussões sobre caça, captura em armadilhas, indústria de peles, maus tratos a animais de estimação, rodeios, zoológicos e circos não significa que tais assuntos sejam menos importantes, mas tão-somente que os exemplos cruciais da experimentação e da produção de alimentos são suficientes para os objetivos pretendidos.

Decidi não responder a todos os pontos levantados pelos filósofos sobre os argumentos éticos desse livro. Isto alteraria a natureza do próprio livro, transformando-o em um trabalho acadêmico, interessante para meus colegas de profissão, porém enfadonho para o leitor comum. Em vez disso, indiquei, em locais apropriados no texto, alguns outros escritos, onde minhas respostas a certas objeções podem ser encontradas. Também reescrevi uma passagem no capítulo final, em que mudei de idéia sobre um ponto filosófico cuja relação com a fundamentação ética sobre a qual assenta a argumentação desse livro é apenas periférica. Quanto a essa fundamentação, ministrei aulas sobre ela, mencionei-a em palestras e seminários em departamentos de filosofia, e discuti-a em profundidade, tanto verbalmente quanto por escrito; entretanto, nunca me defrontei com objeções insuperáveis, nada me fez pensar que os simples argumentos éticos que embasam esse livro não são sólidos. Tem sido estimulante constatar que muitos de meus colegas mais respeitados do campo da filosofia concordam comigo. Deste modo, tais argumentos são mantidos aqui, inalterados.

Ainda falta tratar do primeiro dos três aspectos a serem atualizados: a descrição do movimento de Libertação Animal e do curso que tomou.

Tanto nos relatos sobre experiências em laboratório quanto sobre criação industrial, e no capítulo final dessa edição revisada refiro-me a algumas das principais campanhas e conquistas do movimento de Libertação Animal. Não tentei descrever as campanhas em detalhes, porque alguns dos principais ativistas o fizeram em um livro intitulado In Defense of Animals [Em Defesa dos Animais], que editei há algum tempo. Mas uma questão importante para o movimento deve ser ressaltada nesse livro: a violência. Eu a abordo a seguir.

Os ativistas têm recorrido a uma série de meios para fazer avançar os objetivos da Libertação Animal. Alguns procuram educar o público distribuindo panfletos e escrevendo cartas a jornais. Outros fazem pressão em funcionários do governo e seus representantes eleitos para o Parlamento ou o Congresso. Organizações de ativistas fazem demonstrações e protestos do lado de fora de locais onde se inflige sofrimento a animais para servir a objetivos humanos triviais. Porém, muitos se impacientam com o lento progresso conseguido por tais meios e desejam implementar ações mais diretas para deter de imediato o sofrimento.

Ninguém que compreenda o sofrimento suportado pelos animais pode criticar essa impaciência. Em face da contínua atrocidade, não basta sentar-se e escrever cartas. Há necessidade de ajudar os animais já. Mas, como? Os legítimos canais usuais para protesto político são lentos e incertos. Devem-se arrombar as portas e libertar os animais? Isso é ilegal, no entanto, a obrigação de obedecer à lei não é absoluta. Ela foi justificadamente quebrada por aqueles que ajudaram escravos fugitivos na América do Sul, para mencionar apenas um paralelo possível. Problema mais grave é que a literal libertação de animais de laboratórios e granjas industriais pode ser tão-somente um gesto simbólico, pois os pesquisadores simplesmente encomendarão novas levas de animais e, além disso, quem pode encontrar abrigo para mil porcos ou 100 mil frangos de uma granja industrial? Os reides de grupos da Animal Liberation Front [Frente de Libertação Animal] de vários países têm sido mais eficazes quando conseguem provas da violência praticada contra animais que, de outra forma, não seriam conhecidas. No caso do ataque de surpresa ao laboratório do Dr. Thomas Gennarelli, da Universidade da Pensilvânia, por exemplo, videoteipes roubados forneceram a prova que, finalmente, convenceu até mesmo o secretário de saúde de que as experiências deviam ser interrompidas. É difícil imaginar que esse resultado pudesse ser alcançado de outra forma, e só posso elogiar as pessoas corajosas, diligentes e sérias que planejaram e executaram essa ação específica.

Mas outras atividades ilegais são muito diferentes. Em 1982, um grupo autodenominado “Animal Rights Militia” [Milícia dos Direitos dos Animais] enviou uma carta-bomba para Margareth Thatcher; em 1988, Fran Trutt, uma ativista dos direitos dos animais foi presa no momento em que colocava uma bomba do lado de fora dos escritórios da U.S. Surgical Corporation, uma empresa que usava cães vivos para demonstrar seus instrumentos cirúrgicos de grampear. Nenhuma dessas ações foi, de forma alguma, representativa do movimento de Libertação Animal. Antes,jamais se tinha ouvido falar do Animal Rights Militia, e a ação foi imediatamente condenada por todas as organizações do movimento de Libertação Animal britânico. Trutt trabalhava isoladamente e suas ações foram logo denunciadas pelo movimento americano. As provas apresentadas também sugeriam a existência de uma armadilha, pois ela foi levada para o escritório da empresa por um informante pago, contratado pelo consultor de segurança da U.S. Surgical. Porém, essas ações podem ser vistas como um dos extremos do espectro de ameaças e hostilidades aos experimentadores, peleteiros e outros exploradores de animais. Portanto, é importante que os participantes do movimento de Libertação Animal deixem claro sua posição em relação a essas ações.

Seria um erro trágico se mesmo um pequeno segmento do movimento de Libertação Animal tentasse alcançar seus objetivos ferindo pessoas. Alguns acreditam que pessoas que fazem os animais sofrer merecem que também se os façam sofrer. Não acredito em vingança; mas mesmo que acreditasse, seria um desvio prejudicial à nossa tarefa de cessar o sofrimento. Para tanto, precisamos mudar a mentalidade das pessoas sensatas de nossa sociedade. Podemos estar convictos de que uma pessoa que maltrata animais é completamente insensível, mas nos rebaixaríamos até seu nível dela se a feríssemos ou ameaçássemos feri-la fisicamente. Violência só pode gerar mais violência — um clichê, mas cuja trágica verdade pode ser vista em meia dúzia de conflitos ao redor do mundo. A força da causa da Libertação Animal reside em seu compromisso ético; ocupamos o elevado terreno moral. Abandoná-lo é fazer o jogo dos que se nos opõem.

A alternativa ao caminho da crescente violência é seguir a liderança dos dois maiores — e não por acaso, mais bem-sucedidos — líderes de movimentos de libertação dos tempos modernos: Gandhi e Martin Luther King. Com imensa coragem e resolução eles mantiveram-se fiéis ao princípio da não-violência, apesar das provocações e, muitas vezes, ataques de seus opositores. Por fim, tiveram sucesso porque a justiça de sua causa não podia ser negada, e seu comportamento tocou a consciência até mesmo dos que a eles se opuseram. Os males que infligimos a outras espécies são igualmente inegáveis, quando vistos com clareza; e é na justeza de nossa causa, e não no medo de nossas bombas, que residem nossas possibilidades de vitória.

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