Pesquisador percorre pontos de tráfico de animais no PA e no AM

Por Lucas Frasão (Globo Amazônia)

Em foto tirada pelo pesquisador, moradores de região de floresta voltam para casa após um dia de caça - um deles leva a arma sobre o ombro. (Foto: Fabrício Mendes/Arquivo Pessoal)

O comércio ilegal de animais silvestres no Pará e no Amazonas atinge sobretudo mamíferos, no caso do mercado doméstico, e aves, no que se refere à venda para a exportação. A conclusão está na tese de doutorado defendida pelo zoologista Fabrício Mendes, pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (Ufpa).

Mendes analisou dados levantados pelo Ibama entre 1998 e 2007 sobre o mercado de animais silvestres, visitou 18 municípios no Pará e no Amazonas e foi a Portugal, segundo ele a principal porta de entrada para animais brasileiros na Europa, para produzir sua tese.Segundo a Polícia Federal, o tráfico de animais silvestres está entre as atividades ilícitas mais praticadas no mundo, atrás apenas do tráfico de armas, de drogas e de seres humanos.

“Concentramos as pesquisas nas cidades do interior dos estados por sabermos que as evidências do tráfico de animais nessas áreas são mais fortes. Além disso, a fiscalização é muito precária”, diz ele, que viajou por alguns municípios para visitar feiras livres e analisar a ocorrência de animais silvestres.

Com ajuda de um assistente, Mendes aplicou um questionário nas feiras das cidades que visitou. As perguntas eram gerais e analisavam, por exemplo, se a população estava satisfeita com a estrutura da feira. Só no meio das conversas os pesquisadores perguntavam sobre o comércio de animais.

“O pessoal ia revelando que havia comércio de animais nas feiras, mas que o negócio era meio entocado”, diz o pesquisador. “Em duas cidades, pelo menos, tivemos que sair às pressas porque percebemos que havia traficantes querendo saber quem éramos, o que estávamos fazendo”.

Mendes chegou a documentar, em algumas feiras, a venda da carne de animais como a anta, o veado e o peixe-boi. “Há cobrança de imposto para a carne de gado. Às vezes, outras carnes têm preço mais viável para a população, que acaba correndo risco de contaminação”, diz ele.

Em sua análise, Mendes identificou que o mercado ilegal de animais silvestres no Pará e no Amazonas explora principalmente mamíferos, consumidos na alimentação local. No caso do comércio com países estrangeiros, as aves são mais visadas, geralmente compradas para estimação.

Portugal


Outro aspecto da pesquisa buscou analisar o impacto da retirada de animais silvestres do Brasil durante o período colonial. Para isso, Mendes viajou a Portugal, onde encontrou documentos do século 18 reportando a entrada de animais vindos da colônia. “No zoológico de Coimbra, por exemplo, a coleção de aves brasileiras empalhadas é imensa”, diz ele.

As aves constituem o grupo mais explorado no Brasil desde o período colonial, segundo Mendes. “Portugal representa a porta de entrada para o comércio ilegal de animais vindos do Brasil e distribuídos na Europa. As aves ainda são as mais exploradas e hoje, há uma nova modalidade em que se traficam também os ovos das aves”.

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